sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Prólogo

A tarde morria lentamente e Jacira olhou desani­mada para a extensa fila a sua frente. Tinha vontade de chegar em casa, tomar um banho, deixar-se ficar sem fazer nada.


Estava cansada também de obedecer, de fazer coisas das quais não gostava, de trabalhar por obrigação, viver a rotina de sua vida sem graça e sem objetivos.


A culpa era da pobreza, que não lhe permitia usu­fruir as coisas boas da vida. Tudo era difícil.


Trincou os dentes com raiva e colocou-se no fim da fila. Sabia que naquela linha havia poucos ônibus e por certo ficaria quase uma hora esperando.


Se ela houvesse nascido em uma família de me­lhores condições financeiras, não teria de passar por tudo isso. Percebia que para os bairros mais elegantes, os ônibus, além de melhores, eram mais frequentes.


Irritada, sentiu um gosto amargo na boca e uma leve dor de cabeça a incomodou.


O primeiro ônibus chegou, a fila andou um pouco, porém ela não conseguiu embarcar. Teria de esperar pelo segundo.


Quase meia hora e o ônibus não chegava. Vida de pobre. Se ao menos tivesse encontrado um marido com quem dividir os problemas e as despesas, talvez sua vida tivesse se tornado melhor.


Aos trinta e oito anos, nunca havia tido um namo­rado. Os poucos homens que se interessaram por ela, eram tão pobres quanto ela.


De que lhe adiantaria casar e continuar a ter uma vida miserável como sempre tivera? Colocar no mundo crianças sem chance de serem felizes seria um crime ainda maior.


Conformara-se em viver com a família. Neto, seu irmão mais velho, saíra de casa, fora para o Rio de Ja­neiro tentar a sorte e nunca mais voltara.


De vez em quando escrevia para a mãe, dizendo que estava trabalhando em um hotel, mas como ga­nhava pouco não tinha como ajudar a família.


Jair, outro irmão, mais novo dois anos do que ela, ao contrário de Neto, fora embora para o Rio Grande do Sul e havia mais de dez anos não mandava notícias.


Às vezes, ela pensava que talvez ele tivesse mor­rido por lá. Sua mãe não se conformava em não saber nada sobre ele e, quando se lembrava disso, ficava chorando pelos cantos, de cara amarrada, sem falar com ninguém.


Se ela se queixasse, o marido ficava nervoso, brigava, culpando-a pelo filho nunca mais tê-los procurado.


Enquanto Aristides manteve o emprego na mon­tadora de automóveis, apesar de ganhar pouco, vi­viam melhor. Tudo ficou pior quando ele foi mandado embora e não conseguiu mais trabalho.


Finalmente o ônibus apareceu e ela conseguiu subir, mas não havia lugar para se sentar. Ficou em pé. Sentia as pernas doerem, a bolsa pesava, mas era melhor seguir assim do que esperar mais tempo na fila onde ficaria em pé do mesmo jeito.


O ônibus lotado não lhe permitia movimentar-se. Suas costas doíam e as pernas tentavam manter o equilíbrio.

O ar viciado e o cheiro de suor a incomodavam. De vez em quando alguém lá de trás queria passar para descer e apertava as pessoas para abrir caminho.

Por fim um rapaz desceu e ela conseguiu sentar-se. Pelo menos isso. Do seu lado, um homem robusto suava, apesar do vento que entrava pela janela que ele abrira.

O ar que entrava trouxe-lhe certo alívio. Dez mi­nutos depois, deu sinal para o ônibus parar, levantou-se e tentou passar.

O ônibus começou a andar e ela aflita gritou:
- Desce.

A brecada forte a jogou em cima de uma mulher que a olhou enraivecida.

- Desculpe - murmurou ela. Ao passar pelo mo­torista não se conteve: - Não pode esperar os passa­geiros descerem? Para que tanta pressa?

- Desce logo, d. Maria - resmungou ele.

Mal Jacira tirou o pé do degrau, o ônibus co­meçou a andar e ela quase caiu. Foi amparada por um homem que estava parado no ponto. Jacira sentiu um perfume gostoso e assim que conseguiu equili­brar-se olhou para ele.

Homem alto, bonito, muito bem-vestido, cheiroso, olhava-a sorrindo, e lhe perguntou amavelmente:

- Você se machucou?

Jacira sentiu uma raiva surda, imensa, e não con­seguiu segurar o pranto. As lágrimas desceram pelo seu rosto e ela soluçava sem parar.

O homem a olhava surpreendido:

- O que aconteceu? Por que está chorando deste jeito?

Vendo que ela continuava chorando e que as pessoas em volta o olhavam desconfiadas, ele segurou o braço dela dizendo:

- Acalme-se. Venha. Vamos conversar. Apanhou a bolsa dela que estava no chão e começou
a andar levando-a pelo braço. Jacira deixou-se conduzir docilmente. 

 Não estava em condições de refletir.

Um pouco adiante, havia uma pequena praça e ele a levou até lá, fazendo-a sentar-se em um banco e sentando-se a seu lado.

Aos poucos, Jacira foi se acalmando. Ele tirou um lenço do bolso e ofereceu-o a ela que, envergonhada, apanhou-o e enxugou os olhos.
Depois, ainda estremecendo de vez em quando, Jacira disse:
- Desculpe, não consegui me controlar.

-  Há momentos na vida em que não conseguimos nos segurar.

-  O senhor foi muito gentil, estou envergonhada. Não costumo perder o controle desse jeito.


- Sente-se melhor?

Ele era um homem bonito, de classe. Muito dife­rente dos homens que residiam naquele bairro.

- Já passou. Obrigada.

Ela fez menção de levantar-se, porém ele colocou a mão sobre seu braço dizendo:

- Descanse. Espere um pouco mais.

-  Eu preciso ir. Minha mãe fica preocupada quando demoro para chegar.

-  Você se machucou ao descer do ônibus? Por essa razão estava chorando?

-  Não. Eu estava chorando de raiva. O senhor tem boa aparência, é elegante, não deve saber como é vida de pobre.

- Vida de pobre pode ser muito boa. Jacira enrubesceu ao responder:

- Está se vendo que não sabe nada sobre isso. Deve ter tido sorte na vida. Dá para perceber que é uma pessoa fina, que nunca soube o que é ser pobre.

- A revolta não vai ajudá-la a melhorar sua vida.

-  É fácil falar. Você não diria o mesmo se esti­vesse em meu lugar.
-  Você não me conhece.

-  Não, mas dá para notar que é um privilegiado. Uma pessoa que teve mais sorte do que eu. É isso que me enraivece. Por que alguns têm tudo enquanto ou­tros nada? Por que alguns são bonitos, ricos, enquanto outros são condenados à miséria e ao sofrimento? Estou cansada. Odeio minha vida, minha pobreza. Por que tudo me tem sido negado? Por que tenho de tra­balhar naquele lugar horrível, obedecer pessoas de­sagradáveis e no fim do mês não ter dinheiro para comprar nada?

Ela fez uma pausa enquanto ele a olhava pensa­tivo, e continuou:

-   Pode imaginar como é minha vida? Sem di­nheiro, sem amor, odiando cada dia e tendo de conti­nuar assim?

-   Nunca pensou em jogar tudo para o alto e esco­lher outro caminho onde pudesse fazer o que gosta?

Ela olhou-o incrédula:

- É isso mesmo o que eu gostaria de fazer. Mas é impossível.

- Por quê?

- Porque com meu minguado salário, além de mim sustento meus pais. Se eu deixar o emprego do que iremos viver? Às vezes sinto raiva dos meus dois irmãos. Eles saíram de casa e nunca mais voltaram. Deixaram tudo para mim.

-   Como é seu nome?

-   Jacira.

- Eu me chamo Ernesto Vilares. Gostaria de con­versar um pouco mais com você.
 
Ela olhou-o desconfiada, porém a fisionomia dele estava calma.
- Para quê?

- Desde que começamos a conversar, você só se queixou. Acha que isso vai resolver seus problemas?

- O que acha que posso fazer se tudo dá errado?

-   Poderia tentar fazer alguma coisa melhor. Jacira meneou a cabeça negativamente:

- Acha que gosto de me queixar? Que faço isso por esporte? Ainda não entendeu que sou uma pessoa sem sorte para quem tudo dá errado?

-  Isso não é verdade. Você é quem procura o lado pior de todas as coisas e assim acaba tendo o pior. É bom saber que as palavras têm força. Você está mer­gulhada na queixa e não percebe as oportunidades boas que a vida lhe dá.

-  Eu nunca tive uma boa oportunidade. Só me acontecem coisas ruins. Sem dinheiro, sem amor, só faço obedecer. Em casa aos meus pais, no trabalho aos meus chefes.

-  E quando é que você faz alguma coisa que lhe traz alegria?

-  Acha que eu posso? Gosto de ouvir música, mas meu pai não me deixa ligar o rádio porque diz que o barulho lhe faz mal aos nervos.
-  Não sai para passear com amigos?

-  Não tenho amigos. A última amiga que arranjei, isso há mais de dez anos, meu pai implicou e infer­nizou a vida de minha mãe dizendo que se saíssemos juntas, ela iria acabar me perdendo. Ele não gosta que eu saia de casa para passear. Então, essa amiga percebeu e nunca mais apareceu. Aí me conformei e nunca mais arranjei outra.

Ele olhava-a penalizado, por fim disse:

-  Não sei como você aguenta essa situação. Agora entendo a crise que teve há pouco. Se continuar assim, vai chegar um momento em que não conseguirá tra­balhar, nem fazer mais nada. Você precisa reagir.

-  Sinto que não estou mais aguentando mesmo. Mas reagir como? 

Não vejo saída. Já pensei até em acabar de uma vez com esta vida.

-  Pois eu lhe digo que há saída e você poderá en­contrá-la quando quiser.

- Sei que quer me consolar, mas não creio que consiga.

-  Quer saber? Você, durante toda sua vida, só pensou nos outros. 

Em obedecer aos pais, em trabalhar para ajudar a família, mas para fazer isso, esqueceu-se de si mesma. Deixou de lado sua alegria, seu bem-estar. Permitiu que os outros mandassem em sua vida. Quantos anos tem?

-  Trinta e oito.

-  Você não é mais uma criança, é uma mulher, mas não se permitiu crescer, agir por si mesma. Escolher o próprio caminho. Dentro de você há uma pessoa opri­mida que não suporta mais continuar limitada, presa.

-  O que posso fazer?

-  Esqueça por um momento quem você é e diga: se você pudesse escolher, o que gostaria de fazer agora?


Ela fechou os olhos e não respondeu logo. Seu rosto foi se transformando aos poucos, ficando disten­dido, e fundo suspiro saiu do seu peito.


- Ah! Eu gostaria de ir a um baile de formatura. Vestir um vestido longo, estar num salão cheio de flores, a meia-luz, dançando com um homem alto, bonito. Sempre sonhei em me formar, mas não pude continuar estudando.

- Mas você pode. É hora de pensar mais em você. Ela abriu os olhos e seu rosto contraiu-se nova­mente:

-  É um sonho impossível.

-  É um projeto que você pode realizar. Olhe, vou dar-lhe meu cartão. Eu posso ajudá-la a mudar sua vida para melhor.

-  Como assim? Está me oferecendo um emprego?

-  Não. Vou ensinar-lhe como realizar seus sonhos. Aqui está o endereço. Não é longe daqui.

-  Mas eu chego tarde todos os dias.

- Pode ir à noite. Se quiser poderá ir amanhã mesmo. Estarei lá para explicar-lhe melhor.

Ela segurou o cartão e colocou-o na bolsa. De­pois, levantou-se:
- Vou ver se dá para ir.

-  Sente-se melhor?

-  Sim. Desculpe a cena que eu fiz.

- Está tudo bem. Não deixe de ir. Estarei a espe­rando. Até amanhã.
- Até amanhã.

Jacira estendeu a mão que ele apertou e se foi rumo a sua casa. Não sabia se deveria ir àquele lugar. O que ele queria com ela? Por que a tratara com tanta atenção? Ela não tinha dinheiro, não era bonita. 

Es­tava claro que ele não estava interessado nela. Um homem tão fino, com tanta classe, tão agradável!

Ela chegou em casa e encontrou a mãe de mau humor.

-   Por que demorou tanto? Aconteceu alguma coisa? Seu pai já estava quase indo atrás de você.

-   Não aconteceu nada. Foi a condução. O ônibus demorou.

-   Deixei seu prato no forno. Coma e não se es­queça de lavar tudo. 

Deixei as panelas para você. Estou cansada. Não aguentava mais. 

Trabalhei o dia inteiro nesta casa. Depois, recolha a roupa no varal porque já deve estar quase seca. Pode chover esta noite.

Jacira olhou desanimada. Estava cansada, as pernas doíam e as costas pesavam como chumbo. Mas não re­trucou. Lavou as mãos, foi à cozinha, apanhou o prato de comida no forno e colocou-o sobre a mesa.

Arroz, feijão, ovo frito e duas rodelas de tomates. Suspirou resignada. Não tinha ânimo para esquentar a comida. Havia três panelas sujas sobre o fogão e ela não queria sujar mais uma.

Sentou-se. Enquanto comia sem vontade, lem­brou-se das palavras daquele homem.

"- Vou ensinar-lhe como realizar seus sonhos. Eu posso ajudá-la a mudar sua vida para melhor."


"Pois sim!", pensou irônica. "Ele não sabe nada sobre a vida. Bem-vestido, cheiroso, elegante. Um homem de sorte. Com certeza nunca enfrentou os problemas que eu enfrento."


A comida estava sem gosto e ela, depois de al­gumas garradas, levantou-se, jogou o restante no lixo e procurou o avental para lavar a louça.


A mãe não havia deixado apenas as panelas, mas os pratos, talheres, algumas xícaras, o que a fazia supor que havia naquela pia toda a louça utilizada du­rante o dia.


Esquentou uma chaleira de água e começou a lavar. Enquanto fazia o trabalho, sentia que a dor nas costas a incomodava, mas não parou nem um minuto para descansar.


Queria terminar logo para ir se deitar. Quando terminou a louça, limpou o fogão, guardou tudo, foi ao quintal e recolheu a roupa. 

Depois, levou-a ao quar­tinho. Lá estava o cesto onde deveria colocá-la para passar. O que faria no sábado à tarde.


Sua mãe deixava toda a roupa da semana para ela passar. É que ela se queixava de dores nos braços e Jacira preferia poupá-la.


Enquanto dobrava a roupa para colocá-la no cesto, pois sua mãe exigia que fizesse isso com cuidado, Ja­cira tentava combater sua revolta pensando que pelo menos, ela conseguira comprar a máquina de lavar roupas, que ainda estava pagando a módicas presta­ções, o que lhe poupava o trabalho de lavagem.


Quando terminou tudo, a casa estava às escuras. Seus pais já haviam se recolhido.


Ela subiu para o quarto. Ao tirar a roupa, o cartão que o homem lhe dera caiu do seu bolso. Ela apa­nhou-o e leu. Depois pensou:


"Vou jogar isso fora. Ninguém dá nada de graça. Esse homem deve estar querendo alguma coisa. Talvez seja uma arapuca."


Assim, colocou-o sobre a mesinha de cabe­ceira e suspirou resignada. Lavou-se e, finalmente, deitou-se. Estava tão cansada que não conseguiu dormir de pronto.


No dia seguinte, tudo se repetiria igual ou pior do que naquele dia. Ela estava destinada a viver essa vida ruim e sem alegria. Isso não valia a pena.


Sua mãe a ensinara a rezar antes de dormir. Ela, porém, havia muito deixara de fazê-lo. Para que rezar a um Deus que se esquecera dela?


Sua vida estava traçada e não havia jeito de mudar nada. Seu destino era ficar assim, sofrendo, de mal com a vida. Dia a dia a revolta que sentia no coração aumentava.